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Um poema de María Sabina traduzido por Jorge Miranda



Além dos cogumelos, as veladas também se caracterizam pelas bendições e preces – e o trabalho de María Sabina nessa dimensão encantatória e curativa da palavra insere seus cantos xamânicos também na esfera da poesia. Os rezos melódicos, simples e hipnóticos, geralmente entoados sob efeito de transe, manifestam sua força justamente por meio do poder mágico da palavra em estado poético.

Muito do que se conhece sobre a vida de María Sabina se dá graças às pesquisas do antropólogo e botânico Robert Gordon Wasson que, em 1955, junto de sua esposa Valentina Pavlovna, conheceu María Sabina e foi autorizado a participar e registrar os ritos da velada. Além de Wasson, uma série de livros, biográficos e etnopoéticos, documentam a história, a tradição xamânica e a potência poética dos cantos de María Sabina, entre os quais se destacam Poesía ignorada y olvidada, publicado por Jorge Zalamea em 1965; Ómnibus de poesía mexicana, editado por Gabriel Zaid em 1971; Vida de María Sabina: La sabia de los hongos (1977) escrito pelo também indígena mazateca Álvaro Estrada; María Sabina: Selected Works (2003), editado pelo poeta, tradutor, ensaísta e pesquisador de etnopoéticas Jerome Rothenberg; e Soy la mujer remolino (2008), editado e traduzido por Carla Zarebska.




María Sabina e Robert Gordon Wasson. 1955.


María Sabina durante uma velada. No canto superior direito está Robert Gordon Wasson. 1955.


Artefatos mazatecas utilizados por María Sabina durante as veladas.



Um poema de María Sabina Tradução: Jorge Miranda

Soy la mujer que sólo nací. Soy la mujer que sola caí. Soy la mujer que espera. Soy la mujer que examina. Soy la mujer que mira hacia adentro. Soy la mujer que mira debajo del agua. Soy la nadadora sagrada porque puedo nadar en lo grandioso. Soy la mujer luna. Soy la mujer que vuela. Soy la mujer aerolito. Soy la mujer constelación huarache. Soy la mujer estrella, Dios porque vengo recorriendo los lugares desde su origen. Soy la mujer de la brisa. Soy la mujer rocío fresco. Soy la mujer del alba. Soy la mujer del crepúsculo. Soy la mujer que brota. Soy la mujer arrancada. Soy la mujer que llora. Soy la mujer que chifla. Soy la mujer que hace sonar. Soy la mujer tamborista. Soy la mujer trompetista. Soy la mujer violinista. Soy la mujer que alegra porque soy la payasa sagrada. Soy la mujer piedra del sol. Soy la mujer luz de día. Soy la mujer que hace girar. Soy la mujer del cielo. Soy la mujer de bien. Soy la mujer espíritu porque puedo entrar y puedo salir en el reino de la muerte.


Sou a mulher que somente nasci Sou a mulher que sozinha caí Sou a mulher que espera. Sou a mulher que examina. Sou a mulher que olha para dentro. Sou a mulher que olha embaixo d’água. Sou a nadadora sagrada porque posso nadar no grandioso. Sou a mulher lua. Sou a mulher que voa. Sou a mulher aerolito. Sou a mulher constelação huarache. Sou a mulher estrela, Deus porque venho percorrendo os lugares desde a sua origem. Sou a mulher da brisa. Sou a mulher do orvalho fresco. Sou a mulher da alvorada. Sou a mulher do crepúsculo. Sou a mulher que brota. Sou a mulher arrancada. Sou a mulher que chora. Sou a mulher que assobia. Sou a mulher que faz soar. Sou a mulher tamboreira. Sou a mulher trompetista. Sou a mulher violinista. Sou a mulher que alegra porque sou a palhaça sagrada. Sou a mulher pedra do sol. Sou a mulher luz do dia. Sou a mulher que faz girar. Sou a mulher do céu. Sou a mulher do bem. Sou a mulher espírito porque posso entrar e posso sair do reino da morte.

 
 
 

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